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        CITAD: equipa de investigação do projeto "ESTEJO" dirige carta aberta à Câmara Municipal do Barreiro.
        Rita Neto Marques
        / Categorias: Ciência, CITAD

        CITAD: equipa de investigação do projeto "ESTEJO" dirige carta aberta à Câmara Municipal do Barreiro.

        - CARTA ABERTA - 

        Os planos para o desenvolvimento da Quinta Braamcamp e a frente estuarina do Tejo

        O Projeto de Investigação (PI) "ESTEJO", do Centro de Investigação em Território, Arquitetura e Design1, tem desenvolvido, ao longo da última década e meia, investigação científica sobre o estuário do Tejo e, neste âmbito, sobre a zona de Alburrica e a Quinta Braamcamp.

        O estuário do Tejo constitui um recurso de enorme valor e de forte potencial. Ao longo do tempo, a relação de equilíbrio entre o Homem e o estuário foi a fundação de modos de vida baseados nas sinergias e nas relações de desenvolvimento, a partir da compreensão da sua natureza e do aproveitamento harmonioso das suas forças.

        A frente estuarina do Barreiro, parte desse equilíbrio, apresenta, ainda, importantes registos desse passado antrópico, como a edificação de moinhos de vento e moinhos de maré – embora o famoso moinho gigante tenha desaparecido e alguns dos restantes se encontrem em avançado estado de degradação – e a Quinta Braamcamp, estrutura residencial e agrícola privada, que se constitui como uma das mais importantes componentes dessa herança.

        No período industrial, este equilíbrio foi fortemente perturbado, com grandes danos ambientais e uma acentuada desorganização do crescimento urbano, que marcam hoje, apesar de alguns progressos, o território do Barreiro e a sua frente estuarina.

        O PI "ESTEJO" tem desenvolvido investigação científica fundamental, promovendo workshops e trabalhos académicos sobre a zona de Alburrica e sobre a Quinta Braamcamp, considerada como um nodal case study das quintas de recreio do estuário do Tejo, que são parte de um vasto estudo sobre a estrutura de quintas estuarinas, conduzido pelo Investigador e Arquiteto Paisagista Rodrigo Dias. Estas quintas constituem cerca de duas centenas de unidades de referência do património cultural dos catorze municípios confinantes com o plano de água estuarino, com um grande potencial artístico, arquitetónico e paisagístico, que se têm transformado e adaptado e são hoje importantes centros de regiões vinícolas demarcadas, núcleos museológicos e culturais, centros de interpretação ambiental e parques urbanos.

        Na Quinta Braamcamp, foram realizados pelo PI "ESTEJO" detalhados levantamentos dos edifícios, assim como pesquisa sobre o projeto oitocentista construído por famílias burguesas portuguesas – nomeadamente os Cruz Sobral e Braamcamp, do final do século XVIII e início do século XIX – para recreio e produção agroindustrial, com moagens e produção de fio de seda, plantação de amoreiras e criação de bichos-da-seda, onde sobressaía um moinho de vento gigante, de recorte holandês, referência à origem dos Braamcamp, ricos e cultos comerciantes de Amesterdão.

        Com cerca de vinte hectares, a Quinta foi construída com o objetivo de recriar as paisagens pitorescas e a vida à borda de água, tal como encontramos nos quadros e pinturas paisagistas holandesas, tendo ainda a salientar uma relação axial e monumental com a Praça do Comércio (na outra margem do estuário) e com o santuário mariano do núcleo antigo do Barreiro, dedicado a Nossa Senhora do Rosário, cuja igreja monumental ombreava com o conhecido santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel.

        A investigação conduziu à descoberta de uma faceta senhorial histórica e cultural da Quinta, há muito esquecida, depois da progressiva construção, no final do século XIX e durante todo o século XX, de uma unidade fabril de transformação de cortiça.

        As atuais convenções europeias e mundiais relacionadas com as alterações climáticas e as previsões de subida do nível da água dos oceanos colocam a Quinta Braamcamp, construída a cotas alagáveis, no centro do impacto destas futuras modificações da linha de margem estuarina, alertando para a necessidade de preservação e sustentabilidade ambiental do seu património construído, natural e ecológico.

        Enquanto equipa de investigação multidisciplinar, conhecedora da realidade do lugar de Alburrica e da Quinta Braamcamp, sentimo-nos, nas condições atuais, compelidos a manifestar uma opinião fundamentada e rigorosa sobre as possibilidades que se prefiguram de transformação deste território, tendo tomado conhecimento, através dos órgãos de comunicação e das redes sociais, do resultado de um concurso de seleção para venda da Quinta a um promotor privado, e da escolha de uma proposta.

        Consideramos que o ordenamento e planeamento para a reabilitação dos vinte hectares da Quinta e a sua urbanização parcial, inserindo-os numa requalificação integrada da cidade do Barreiro, são positivos, perfeitamente legítimos e desejáveis. Fomos, no entanto, confrontados com cenários e simulações de uma ocupação urbanizada e edificada da margem ribeirinha sobre os quais, após uma análise cuidadosa e refletida, vimos apresentar discordância, dado que:

        • Verificamos a proposta de uma construção massiva de blocos habitacionais bloqueando o usufruto da paisagem do mar da palha e do skyline de Lisboa, de direito público, em áreas que, segundo estudos científicos, ficarão submersas com as subidas das cotas de preia-mar, estão sujeitas a condições de ventos agrestes e a uma mutabilidade orográfica própria da sua constituição enquanto zonas aluvionares;
        • Verificamos, igualmente, a perda de uma oportunidade de recriar a estrutura senhorial e paisagística da quinta oitocentista, não apresentando um estudo paisagístico e de estrutura verde coerente com um desenho atual, mas que recupere estruturas axiais de pontos focais e de alamedas, colocando, novamente, em diálogo a Quinta e o núcleo antigo do Barreiro;
        • Verificamos, também, que a arborização e as espécies vegetais que surgem na proposta não são sustentáveis nem adaptadas às condições edáficas e climáticas, e da flora da borda de água do estuário do Tejo, estando prevista uma artificialização generalizada da superfície do solo através de pavimentação;
        • Verificamos, ainda, que é sugerida na proposta a quebra do movimento contínuo das águas estuarinas que sustentam os biótopos das caldeiras de Alburrica, de grande valor ecológico e ambiental, e uma deficiente valorização patrimonial de elementos edificados de grande valor histórico, como o moinho grande de maré e a casa da Quinta, que são compatíveis com novos usos, mas necessitam de uma intervenção sensível e atenta à conservação da sua essência arquitetónica.

        Estas questões essenciais devem ser salvaguardadas, para um desenvolvimento equilibrado da zona de Alburrica. Os planos para o futuro da Quinta Braamcamp são de grande relevância para a relação entre o Barreiro e o estuário e para a definição do carácter do seu desenvolvimento económico, social e ambiental.

        Esta zona, pela sua centralidade no estuário e pelas suas características únicas, diferentes de todo este vasto território, confere-lhe uma singularidade e uma diferenciação, que são um valor em si mesmo e cujo potencial não deve ser desperdiçado. Este carácter excecional, em conjunto com a história da Quinta, ligada originalmente à produção de seda, com a plantação de amoreiras, à protoindústria moageira, com recurso à energia do vento e das marés, e, posteriormente, à indústria de transformação de cortiça e à criação de peixes em viveiro, conjuga-se com a centralidade geográfica e a proximidade, bem como com a facilidade de transporte, em relação a Lisboa, para proporcionar um grande potencial e significado que pode e deve ser estrategicamente potenciado para um desenvolvimento sustentável, que beneficie o futuro do Barreiro, no contexto do estuário e da área metropolitana.

        Deste modo, para a sua reabilitação e reinserção de maneira equilibrada numa perspetiva estratégica, importa, então, assegurar algumas questões fundamentais:

        • A salvaguarda desta frente estuarina deve ser especialmente cuidada, pela particular estrutura paisagística que desenhou, mantendo-se como um território sem edifícios de grande dimensão e sem construções significativas; originalmente marcada, pontuadamente, pela presença dos moinhos de vento, em que sobressaía um moinho gigante, constitui a primeira aproximação física e visual ao Barreiro, a partir do plano de água, devendo procurar-se uma relação de escala adequada a esta posição e ao seu carácter sedimentário de um território de água, parcialmente constituído por areias móveis;
        • As construções fabris (armazéns pré-fabricados) que se implantavam nesta frente e que foram demolidas não devem ser já justificação para a implantação de outras construções no seu lugar, como estava previsto em instrumentos de planeamento para viabilizar a sua substituição; é possível e desejável o seu recuo para um segundo plano, tanto para a preservação desta frente, como para a qualidade das próprias habitações (dada a severidade da exposição aos ventos). A implantação recuada das habitações relativamente à caldeira grande, do moinho de maré Braamcamp, resolveria em grande medida estas questões, sobretudo se reforçada pela criação de uma cortina de árvores, que beneficiaria a proteção contra os ventos e permitiria uma defesa visual para todo o tecido urbano do Barreiro;
        • A utilização de Alburrica, da Quinta Braamcamp e da Ponta do Mexilhoeiro para fins parcialmente habitacionais e dominantemente recreativos, como se antevê nalgumas propostas recentes, é perfeitamente possível e constituiria uma oportunidade de viabilização da sua preservação patrimonial e ambiental e da melhoria da qualidade de vida dos habitantes do Barreiro, assim sejam asseguradas algumas condições essenciais para estes objetivos;
        • Deve manter-se o funcionamento ativo das caldeiras de maré, garantindo o constante enchimento e esvaziamento induzido pelas marés, um aspeto estruturante do território de Alburrica, verificando-se ser essencial a sua manutenção para a preservação das condições ambientais e do carácter formal e paisagístico do lugar, sendo que, para o seu correto funcionamento, é fundamental garantir o desassoreamento e limpeza regulares destas bolsas de água;
        • Alguns edifícios de valor, como o moinho grande de maré e os edifícios da Quinta, bem como o antigo tanque de peixes, são elementos que se encontram em processo de degradação avançada, mas podem vir a constituir componentes conceptuais, centrais para novos usos, que podem ser implementados, sobretudo relacionados com a utilização recreativa e turística, tomando por base uma interpretação do lugar; nessa reabilitação, as características da sua essência patrimonial deverão ser preservadas;
        • Diversos usos compatíveis com a recuperação patrimonial e arquitetónica da Quinta Braamcamp e do conjunto da área de Alburrica podem ser equacionados positivamente para o seu desenvolvimento equilibrado, de que podem constituir exemplos: hotelaria, restauração e cafetaria, centros interpretativos e museológicos do valor histórico e ambiental da zona e do estuário, serviços de acolhimento a congressos e intercâmbios institucionais, serviços técnicos municipais, parque histórico, parques de recreio e campos de jogos, viveiros, hortas urbanas, habitação de pescadores, recreio náutico e habitação;
        • O potencial de desenvolvimento e dinamização do território de Alburrica, entendido em conjunto com o espaço ocupado pela Quinta e pela Ponta do Mexilhoeiro, é tão forte como o seu valor patrimonial; existem possibilidades associadas à presença dos elementos construídos, como a Quinta e os moinhos, a memória dos elementos que marcaram o perfil ribeirinho e a sempre presente força dos elementos naturais; a praia, a influência das marés, os ventos, os ecossistemas, o espelho de água do estuário e a relação à distância com Lisboa são elementos de uma interdependência plural e dinâmica, que pode ser potenciada em diversos campos.

        Por todas estas questões, importa pensar as propostas para Alburrica em diversos contextos, locais e regionais, no plano patrimonial e nas dinâmicas sociais e económicas, na relação entre a riqueza histórica e o futuro que é necessário estruturar, no balanço entre a presença humana e os ecossistemas naturais.

        Uma crítica informada, numa perspetiva integrada à escala do estuário, às propostas divulgadas poderá assegurar a viabilidade do desenvolvimento desta área, preservando, simultaneamente, as qualidades únicas de Alburrica, que é fundamental manter e transmitir para o futuro.

        Alburrica é um centro fulcral do estuário do Tejo, mantendo uma relação de proximidade com Lisboa e um forte carácter, fatores que podem propiciar a criação de novas dinâmicas e oportunidades, que importa identificar e estruturar.

         

        Lisboa, 17 de julho de 2020

         

        CITAD/Equipa de Investigação do Projeto "ESTEJO" Universidade Lusíada

        _________________________

        1 O CITAD – Centro de Investigação em Território, Arquitetura e Design, da Universidade Lusíada, desenvolve investigação científica financiada pelo Governo de Portugal, através da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, e pela Fundação Minerva – Cultura – Ensino e Investigação Científica. O Projeto de Investigação "ESTEJO" estuda o estuário do Tejo, estruturando estratégias para a sua sustentabilidade e desenvolvimento, estabelecendo parcerias com múltiplos agentes no território; tem analisado o território de Alburrica e a Quinta Braamcamp, em colaboração com a Câmara Municipal do Barreiro, entre outros parceiros.

         

        CARTA ABERTA: Os planos para o desenvolvimento da Quinta Braamcamp e a frente estuarina do Tejo

        Artigo anterior COMEGI - Resultados dos concursos para a atribuição de Bolsas de Investigação.
        Artigo Seguinte Falecimento da Professora Maria Eduarda de Almeida Azevedo.
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        Rita Neto Marques

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        Rita Neto Marques é redatora e revisora no Departamento de Informação, Documentação e Internet da Universidade Lusíada.

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        Rita Neto Marques é redatora e revisora no Departamento de Informação, Documentação e Internet da Universidade Lusíada.

        É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e mestre em Ciências da Informação e da Documentação, área de especialização em Biblioteconomia.

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