Projeto EsTejo participa em estudo sobre as Minas d'Água da Ajuda (no espaço e no tempo).
No próximo dia 19 de junho de 2024, pelas 09H30, irá realizar-se uma conferência no Auditório Soares Barata, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, para apresentar o trabalho de identificação histórica e levantamento da estrutura das antigas Minas d'Água da Ajuda. O estudo, coordenado pelo Professor Dr. Nuno Ludovice, foi desenvolvido em parceria com a Junta de Freguesia da Ajuda e o projeto de investigação "EsTejo – O Estuário do Tejo e as suas áreas ribeirinhas", coordenado pela Professora Doutora Arqt.ª Fátima Silva, do Centro de Investigação em Território, Arquitetura e Design (CITAD) da Universidade Lusíada.
[…] As minas da Serra de Monsanto e o Abastecimento de Água da Freguesia da Ajuda: um sistema hidráulico autónomo do Aqueduto das Águas Livres […]
[…] que aguas e anos se não aproveitam com bons empregos, perdidos são e pouco de estimar […] 1
Entre os séculos XVII e XVIII, as zonas de Belém e de Alcântara integravam-se na área de jurisdição da Freguesia da Ajuda, destacando-se as várias Quintas Reais que constituíram um importante fator para a procura de novas nascentes para o seu abastecimento entre as zonas de Belém, Ajuda e Alcântara.

Ilustração 1: Cartaz da mobilidade extracomunitária.
Neste contexto, o abastecimento de água à freguesia da Ajuda fica claramente marcado pela instalação da família real na segunda metade do século XVIII, após o fatídico terramoto que destruiu toda a cidade de Lisboa. Receoso de novas réplicas, D. José mandou erguer um paço de madeira construído no sítio do Alto da Ajuda, tendo a sua construção sido acompanhada pela edificação ou adaptação de antigas casas para a instalação das Secretarias de Estado, aquartelamentos militares e demais serviçais vinculados à família real. Este desenvolvimento demográfico e urbano trouxe uma urgente necessidade de captação e adução de novos mananciais aquíferos.
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Ilustração 2: Mãe d'Água e poço de acesso e respiradouro.
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O presente trabalho procura identificar e caracterizar as linhas de abastecimento de água na zona palatina da Ajuda, contudo esta rede hidráulica não pode ser desvinculada do abastecimento simultâneo das Quintas Reais de Belém e de Alcântara, dada a sua proximidade territorial com a zona da Ajuda. A existência de algumas minas locais dentro das malhas urbanas destes lugares acabaria por não ser suficiente, reportando-se a novos projetos paisagísticos de complexos ajardinamentos formais de influência francesa que evidenciam um significativo aumento de uma vivência cortesã no usufruto destes jardins, ornamentados com fontes e lagos de aparato para decoração e refrescamento dos seus visitantes. No século XVIII, dado o aumento significativo da presença sazonal da família real nestas Quintas, tornou-se necessário encontrar novos mananciais aquíferos para o reforço do abastecimento de água destas propriedades reais, tendo como dominador comum, a prospeção das nascentes de água existentes na Serra de Monsanto.

Ilustração 3: Estrutura da Mina d'Água do Palacio da Ajuda.
Com efeito, já a norte, na zona de Benfica, existia a notícia da importância destas águas ao longo de todo o vale, destacando-se em particular, as minas de água existentes no sopé da Serra de Monsanto, no lugar do antigo paço real de D. Dinis, que será posteriormente convertido em convento dominicano. Como fonte primária incontornável da sua notícia, seguimos o detalhado relato feito por Frei Luís de Sousa e Luís de Cácegas, na sua História de S. Domingos […], dando-nos o conhecimento da existência destas minas, descrevendo-as na sua quantidade e qualidade.

Ilustração 4: Reconhecimento das galerias de captação e distribuição da água das Minas da Ajuda.
Sendo a Serra de Monsanto uma das unidades geomorfológicas mais bem definida do concelho de Lisboa com as suas especificidades geológicas, contendo a presença de calcários e basaltos, permitiram conservar diversas minas de água subterrâneas nas encostas a norte e a sul desta serra, características, que permitiram criar condições para o provimento de água de várias quintas, palácios e conventos que se construíram nestas localidades, cuja existência era de data anterior à construção do Aqueduto das Águas Livres, suprimindo as suas necessidades de água nos riachos e ribeiras existentes, complementadas pelas minas de Monsanto.

Ilustração 5: Levantamento de desenho técnico Mãe d'Água da Mina d'Água do Palácio.
No presente estudo, procurámos fazer a identificação dos importantes sistemas hidráulicos da encosta sul da Serra de Monsanto cruzando várias fontes de diferentes acervos arquivísticos e documentais, destacando primariamente as cartas realizadas na transição para o século XX dos Almoxarifados das Quintas Reais de Belém, Ajuda e Alcântara. Neste âmbito, o estudo integra em anexo um importante trabalho de reconhecimento do sistema hidráulico da atual freguesia da Ajuda, tendo no decurso de 2022 procedido à identificação dos elementos construtivos relacionados com esta rede hidráulica criada para o abastecimento da zona palatina da Ajuda.
Em colaboração com a Junta de Freguesia da Ajuda, este grupo de trabalho, criado no âmbito do referido projeto de investigação, realizou uma proposta de classificação da "Mina do Palácio", tendo sido submetida a 6 de janeiro de 2023 à então denominada Direção-Geral de Património Cultural.

Ilustração 6: Arca d'água da Mina do Palácio.
Com base neste estudo, interessa-nos apresentar o trabalho realizado de caracterização destes sistemas hidráulicos, claramente vinculados ao abastecimento de água das Quintas Reais de Belém, Ajuda e Alcântara.
Todavia, face a várias dificuldades, as zonas da Ajuda, Belém e Alcântara manteriam o seu abastecimento através de minas suburbanas situadas nas encostas de Monsanto por meio de um amplo e complexo sistema hidráulico. Embora hoje praticamente desaparecido, existem ainda inúmeras galerias subterrâneas pontuadas por alguns respiradores que afloram à superfície pela encosta de Monsanto que sinalizam o seu trajeto, testemunhando a importância de garantir mananciais de água suficientes, sobretudo para a zona dos palácios reais, suas quintas e lugares circundantes.
Para além dos aspetos aqui consagrados na necessidade de salvaguarda deste importante património histórico-hidráulico em risco de desaparecer, a abordagem histórico-patrimonial aqui desenvolvida abre, também, uma importante reflexão sobre a sua urgente preservação, enquanto elementos identitários e integradores da paisagem que nos deverão sensibilizar para a importância da água, recurso cada vez mais escasso face às mudanças climáticas extremas com que vamos sendo confrontados, não fosse o caso de em muitas destas estruturas, a água teimosamente permanecer como marca de água de um tempo passado que queremos resgatar e reutilizar para os nossos dias.
Professor Dr. Nuno Ludovice
(Coordenador do estudo)
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(1) SOUSA, Luís de ; CÁCEGAS, Luís de – Primeira[-quarta] parte da História de S. Domingos, particular do reino, e conquistas de Portugal. Lisboa : Off. de António Rodrigues Galhardo,1767. 4 volumes.
Nota 1: fotografia do banner – Planta das Minas e Encanamentos d'Água do Almoxarifado da Ajuda, 1901, BN, recurso disponível em: https://purl.pt/1678.
Helder de Albuquerque Machado
Coordenador editorial
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Helder de Albuquerque Machado é Director dos Serviços de Informação, Documentação e Internet da Universidade Lusíada de Lisboa e Investigador no Centro Lusíada de Investigação em Serviço Social e Intervenção Social. É, também, responsável pelo desenvolvimento de projectos nas áreas das tecnologias da informação e comunicação, como são exemplo os portais "Arquitectura do Saber" e "e-Lusíada". Possui a licenciatura em História (ramos científico e educacional) e a pós-graduação em Ciências da Documentação e Informação, áreas de biblioteconomia e arquivística, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Actualmente, é doutorando em Arquivística Histórica na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Para além da sua actividade como bibliotecário, arquivista e gestor de informação, tem desempenhado funções regulares como docente em cursos de ensino superior, como formador nas áreas da Ciência da Informação e da Internet, como orientador de estágios nos mestrados em Ciências da Informação e da Documentação e como consultor em diversas instituições. Foi membro do Conselho Editorial da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas.
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